A moeda de um lado só

Uma das grandes artimanhas da literatura é seu poder de narrar a mesma história de diversas formas. Às vezes, ainda que com elementos repetidos, consegue-se  enxergar um enredo completamente novo e essa versatilidade faz com que os leitores nunca esgotem sua infinita lista de livros para serem lidos.

Lançado pela primeira vez em 1969, o primeiro dos livros autobiográficos de Maya Angelou, Eu sei porque o pássaro canta na gaiola, narra sobretudo a infância desta poeta e artista americana multifacetada. Por sua vez, O sol é para todos, de Harper Lee, é um romance que foi lançado em 1960 e desde então é um sucesso, escolhido mesmo por algumas destas listas que circulam pela rede como o melhor romance do século XX.

Na ficção, O sol é para todos, uma garotinha narra a saga que seu pai, o advogado Atticus Finch, enfrenta para defender Tom Robinson, não só no tribunal, mas de toda uma cidade, no caso Maycomb, Alabama, da acusação de estupro de uma mulher branca, sendo ele, o acusado, um homem negro.

O olhar infantil que inaugura o mundo é o ideal para acompanhar essa história de que a gente não consegue se despregar até o desfecho. Scout, com seu jeito moleca junto do irmão e do melhor amigo deles, vai nos mostrando toda a insensatez de uma comunidade disposta a tapar os ouvidos e os olhos para as evidências, amparados tão somente pelo preconceito.

Em contraponto, Maya Angelou, criada na cidade de Stamps, no Arkansas, usa de sua prodigiosa memória para nos contar a verdade de seu tio, um homem negro com dificuldades de locomoção que ela viu se esconder numa cesta de batatas e cebolas da mercearia da família, temendo por sua vida durante uma incursão dos “garotos” da Ku Klux Klan.

A menina que Maya foi, não entendeu porque o tio teve que se esconder num lugar que levava as dores daquele corpo deficiente às últimas consequências, nem porque sua avó naquela noite rezou tanto, e tampouco porque homens em cavalos vindos da parte branca da cidade tinham o direito de invadir, se quisessem, e linchar quem encontrassem.

As duas histórias, uma de mentira, outra de verdade, foram contadas por crianças e mostram toda a perversidade do preconceito e como é assombroso nos depararmos com paralelos na vida real para o que a ficção produziu. A constatação é de que algumas moedas têm um lado só.

Choca o fato de que o debate sobre o racismo ainda esteja tão longe de se esgotar, mas este é um importante diagnóstico sobre o quanto nossa sociedade precisa melhorar. A abordagem do tema pelo olhar da literatura pode ser um ponto de partida para que as pessoas brancas questionem sua história e privilégios e compreendam que a luta para que o racismo fique só na ficção deve ser de todos.

Autora

Monique Bonomini é de Poá/SP e tem graduação em Direito e História.

Atua como revisora e leitora crítica e dedica-se ao estudo do feminismo. Apaixonada por livros, mantém sua página no Instagram com impressões de leitura.

No Medium publica outros textos autorais. Publicou um desafio no livro Vida de Escritor, lançado pela Lura Editorial em 2021 e tem um conto na coletânea Um conto de tudo, lançado em 2022 pela Têmpora Criativa.

Nas redes: @moniquebonomini
Site: linktr.ee/moniquebonomini

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