O dia 18 de agosto de 1913 ficou marcado na história por um motivo no mínimo curioso: foi quando, num cassino de Montecarlo, a bola de um jogo de roleta caiu na casa preta por impressionantes 26 vezes seguidas. Uma probabilidade de 1 em mais de 67 milhões, mais improvável até do que ganhar a Mega-Sena.
Nesse dia, apostadores tiveram prejuízos absurdos por conta de um fenômeno psicológico que mais tarde ficou conhecido como falácia do apostador ou falácia de Montecarlo.
Ao verem que a roleta caía 10, 15, 20 vezes na mesma cor preta, a maioria dos jogadores foi apostando valores enormes de que a próxima rodada cairia no vermelho como uma forma de “compensação”, de que “era improvável demais ser a mesma cor outra vez”. E assim perderam fortunas.
Afinal, o fato de uma moeda cair muitas vezes em cara não significa que a probabilidade de coroa se torne maior. Considerando que a roleta fosse justa, a cada novo lançamento a probabilidade de sair cada cor seria sempre de 50%. Neste caso, o passado não afeta o futuro, tratam-se de eventos aleatórios e independentes.
Dessa forma, a falácia do apostador pode nos levar a interpretações erradas em diferentes ramos da vida e da carreira. Claramente existem fatores que presumem uma relação de causa e efeito: quanto mais tempo fico sem comer, maior tende a ser minha próxima refeição ou quanto mais frio, maior a tendência de usar roupas mais pesadas. Contudo, às vezes essa relação pode não ser tão clara.

Não é porque os filmes do Nicolas Cage parecem acompanhar o número de afogamentos nos EUA no gráfico que uma coisa esteja interferindo na outra. Não é porque as vendas estiveram em queda nos últimos dias pares que necessariamente os dias pares sejam ruins em vendas. Pode ser que nosso foco esteja simplesmente desalinhado para não percebermos a influência de outras variáveis que podem ser mais relevantes, como clima, temperatura, feriados, eventos sazonais…
Algumas dicas para evitar conclusões afetadas pela falácia do apostador:
– Considere uma amostra relativamente grande de dados – Quanto maior o histórico considerado, maior a chance de ter uma visão geral mais correta. No exemplo dos apostadores, mesmo com aquele dia fatídico, a tendência é que a cor vermelha tenha saído em 50% de todas as vezes que aquela roleta girou. O problema foi assumir que uma pequena quantidade de lançamentos pudesse representar bem o comportamento de milhões de lançamentos.
– Busque outras variáveis – Prender-se a um potencial fator influenciador pode fazer com que se deixe de enxergar outras variáveis importantes.
– Mantenha um espírito crítico – Coincidências podem acontecer. Diante de uma aparente correlação, é bom respirar e analisar um pouco mais a fundo primeiro. Temos a tendência de buscar padrões em tudo, assim alimentamos crenças e superstições que podem se provar infundadas na ocorrência de novos testes.
Autor

Leandro Dupré Cardoso é o criador da página Olhar para Dentro.
Administrador paulistano nascido em 1993, é produtor de artigos para o blog Obvious e foi indicado para a fase final do Prêmio Strix 2016 e 2017 pelas publicações em coletâneas de contos da Editora Andross. Tornou-se jurado do Prêmio Strix em 2018, 2019 e 2022.
É autor dos livros de ficção “O rico, a velha e o vagabundo”, “A era i-Racional”, “Samádia – A lenda da ilha perdida”, bem como da série “O Pinheiro”, entre outros publicados pelas Editoras Andross, Clube de Autores e Kindle Direct Publishing (Amazon).
Email: leandroduprecardoso@gmail.com
Facebook: Leandro Dupré Cardoso
Instagram: @leandro_dupre
