Apresentando Livros: “Outros Acetetos”, de Marcelo Aceti

Quem está acostumado com sonetos certamente irá se lembrar deles ao se deparar com um aceteto.

Só que ali a ideia é ser mais fluido e leve, praticamente um soneto cortado pela metade para se tornar um estilo mais rápido e direto.

Quem nos conta um pouco melhor sobre esse estilo poético é o seu próprio criador, Marcelo Aceti, que realizou em 2023 o lançamento do livro “Outros Acetetos”, sua segunda obra publicada nessa linha de escrita.

Conte um pouco sobre você!

Eu sou escritor, músico e poeta. Também sou professor, minha formação é em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Já fui corretor de vestibulares, da redação do ENEM. Mas atualmente me dedico principalmente aos livros, não só os meus, mas também trabalhando como editor e curador literário.

Por trabalhar como editor, acaba que estou sempre lendo muito. A leitura é uma parte gigantesca da minha rotina, embora eu não consiga parar para ler algo simplesmente por gosto, por vontade. Estou sempre lendo, mas sempre a trabalho.

O que me ajuda bastante no dia a dia são as séries de 20 e os filmes, tento ver pelo menos 2 filmes toda semana. Ah, séries de 20 são aqueles seriados curtos, com episódios de 20 minutos, mais descontraídos, séries confortáveis… sitcoms, como Friends, Seinfeld, The Office… Atualmente estou revendo Mad About You. Pelo menos 1 episódio todo dia no almoço para respirar e voltar ao trabalho.

O que são acetetos e como surgiu a ideia de escrevê-los?

Adoro falar sobre os acetetos, mas confesso que ainda acho esquisito ver algo que eu inventei ganhando corpo, vendo outros poetas escrevendo nesse formato; é muito gratificante, mas bastante esquisito.

Os acetetos surgiram a partir da minha proposta minimalista sobre a arte, a escrita, por ver no mundo esse apressado das coisas. No primeiro volume dos “Acetetos” (2015), conto um pouco dessa história, que o aceteto surge do soneto, de uma redução do soneto, espremendo, enxugando, lapidando até chegar nesse meio soneto de 7 linhas, cada uma com 7 sílabas poéticas.

Ele veio daí, como uma releitura do soneto, mais dinâmico, mais rápido, sem gorduras.

Agora em 2022 lançamos o segundo volume da série (“Outros Acetetos”) e, durante o processo, fui revirando alguns cadernos antigos e vi que já tem mais de 10 anos que comecei a estudar possibilidades até chegar no aceteto.

Como é seu processo criativo na produção de acetetos?

Nossa, varia muito!

Eu percebo que, hoje, a métrica já surge naturalmente na minha cabeça: 1 2 3, 1 2 3 4. As sete sílabas de cada verso, sendo a terceira e a sétima tônicas. Parece que já penso de sete em sete. Mas nem sempre foi assim.

Já as ideias surgem das mais variadas formas – e nos momentos mais inusitados. Quantas vezes deito pra dormir e a cabeça, em vez de relaxar, começa a maquinar… até que algo brota, um jogo de palavras, uma reflexão a respeito de algo que discuti durante o dia, uma notícia que ficou na cabeça, um pedaço de conversa que a gente pesca na rua, alguma leitura que despertou um pensamento, tudo acaba virando matéria-prima.

Mas o processo em si, depois da inspiração, depois daquela fagulha de ideia, aí já é bem “trabalho” mesmo. Escolher palavras que rimem, definir o que fica na primeira estrofe e o que vai finalizar o texto. Já tenho um procedimento certinho, bem metódico mesmo de como fazer uma ideia virar um aceteto. Desde a liberdade de jogar com as palavras, explorar as possibilidades de interpretação, até concluir esse laborioso ofício de fazer caber.

Após a publicação do primeiro livro dedicado a acetetos, como foi a percepção da ideia de um novo livro a respeito?

Como tudo no livro gira em torno do número 7, desde a brincadeira com o meu nome (Aceti, A7) até o livro em si, que é dividido em 7 livros, cada um com 7 poemas, cada um com 7 versos, cada um com 7 sílabas poéticas, foi quase que inevitável imaginar que os livros dedicados aos acetetos seriam também 7.

Aproveito para adiantar aqui: “Outros Acetetos”, o segundo volume, é o segundo de sete. Já está tudo separadinho em pastas, previsto para lançar um novo volume a cada… 7 anos.

“Acetetos” saiu em setembro de 2015, “Outros Acetetos” em setembro de 2022… já estou planejando setembro de 29!!!

Como foi a definição das sete temáticas que aparecem no livro?

Cada livro de Acetetos é dividido em 7 livros com 7 poemas. Para definir a temática e o título de cada um, eu tenho duas etapas.

Uma é ver na minha listinha de “coisas que são 7”: 7 dias na semana, 7 notas musicais, 7 cores no arco-íris, 7 pecados capitais… E tento, quando possível, fazer um jogo de palavras e ideias com esses elementos e o eixo temático que aproxima os 7 poemas que vão entrar ali.

Nem sempre há uma relação óbvia entre eles, mas na minha cabeça faz sentido. Isso me preocupa bastante, sabe?! Bolar algo que eu veja muito sentido, mas que não transpareça para o leitor. Ainda assim, no fim das contas, a minha poesia também tem um pouco disso, desse conflito, desse “quase”, desse desencontro entre o que se quer dizer e o que conseguimos falar. Uma das minhas palavras preferidas nesses momentos de inquietude é o “quase”. O quase é o pesadelo de muitos dos nossos sonhos.

Quais seus acetetos preferidos e por quê?

Eu gosto de quase todos. Alguns têm um carinho especial por algum motivo pessoal que me levou a escrever, outros eu gosto por um jogo de palavras e ideias que me fizeram pensar e quero dividir isso com o leitor. Mas, destacar alguns, seja para apresentar em algum sarau, para discutir em alguma palestra ou aqui, simplesmente para mostrar meus preferidos, é sempre uma tortura.

Um aceteto muito importante para mim é o “Saideira”, foi colocado de propósito como último texto do primeiro livro, o amarelo de 2015. Ele surgiu praticamente pronto no fim de um dia muito pesado. A depressão é um tema muito presente na minha vida e no meu trabalho, tanto pelo meu diagnóstico quanto pela minha atuação em grupos de apoio e com a iniciativa “Se você ama alguém que sofre…” e, para alguém que convive com a depressão, foi muito desafiador socorrer um antigo vizinho meu que tentou suicídio. Cobrir ferimentos, chamar bombeiros, isso tudo. E, no fim do dia, me veio o “Saideira”, para me lembrar de como a vida pode virar do avesso de repente.

Além desse, tenho um carinho muito grande pelo “Fogueira”.

No segundo livro, eu quis abrir com “Guarda-corpo”, como uma sequência do “Saideira”, mostrando um momento limítrofe, mas acreditando em uma segunda chance.

Tem muitos acetetos neste segundo volume que gosto (até mais do que do primeiro), mas acho que isso é natural, o tempo passa e a gente se identifica mais com o que estamos escrevendo agora do que com aquilo que fizemos há 7, 8, 10 anos. Outros tempos… Outros versos!

Um aceteto que gosto de destacar é o “Diálogo”. Primeiro porque ele entra naquele hall de textos que eu adorei fazer, mas me preocupo se consegui dizer o que eu queria falar. Em segundo lugar, porque ele foi um trabalho muito desafiador. Combinar a métrica fechada do aceteto (2 estrofes, um quarteto e um terceto, 7 versos, cada um com 7 sílabas poéticas e ainda a terceira sílaba de cada verso também tônica) e as rimas, com o fato de usar somente palavras proparoxítonas. Desde o título (Diálogo), todo o texto é composto por proparoxítonas. Rimar com elas já é uma luta, agora escrever somente com elas e ainda contar uma história, passar um sentimento, desenhar uma cena… Eu gostei muito do resultado, mesmo que seja um texto que a gente precisa reler algumas vezes para o sentido ir brotando por completo. E é um aceteto feito com muito carinho para uma pessoa muito importante na minha vida, então acaba tendo um espaço todo especial nessa lista.

Mas, como eu disse, cada aceteto tem uma história e é quase injusto eleger um preferido. Convido as pessoas a lerem cada um e a buscarem sua própria leitura deles, se identificarem com esse ou aquele. A partir de um poema, cada leitura faz brotar uma poesia própria, única em cada um que lê.

Como podemos adquirir o livro? Quais os contatos em que podemos falar com você?

Meus livros estão disponíveis nas livrarias físicas e nos principais marketplaces (Amazon, Submarino, Magalu, Americanas etc.) mas quem quiser pode fazer contato diretamente com a Editora Litteris ou comigo, no meu Instagram @marceloaceti, Twitter @marceloaceti

Quem quiser adquirir comigo, além do autógrafo, temos também alguns brindes. Gosto de pensar algo especial para cada livro meu, tanto os de poesia, prosa quanto para os infantis. Cada livro tem um mimo. Ah, e claro, comprando diretamente comigo quase sempre sai mais barato do que nos sites.

Tem algum novo projeto em vista que possa nos contar um pouco?

Para 2029 temos o terceiro livro dos Acetetos! Mas, antes disso, acredito que seguirei me dedicando ao meu trabalho infantil. Faço livros musicais, já tenho um projeto novo saindo da gaveta, mas ainda não podemos divulgar.

O foco agora é, além do meu trabalho como autor, editar e publicar muitos autores de poesia para a Bienal do Livro Rio 2023 e a coletânea “Sarau”, pensada com muito carinho para reunir a obra de diversos poetas e ser lançada, claro, em um Sarau. Tem muita coisa boa para este ano e, se tudo der certo, para os próximos 7!

Muito obrigado pelo carinho comigo e com o meu trabalho, pelo presente maravilhoso que foi dar essa entrevista.

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