O canto da araponga

Em uma floresta longínqua, vivia uma araponga com um sonho: emitir um canto tão alto que seria ouvido pelo mundo todo.

As arapongas já possuem o canto mais alto entre as aves, contudo esta desejava de qualquer forma se destacar entre todos os membros de sua espécie.

O pássaro treinou a sua vocalização, potência e projeção de som. Após os exercícios, questionou as aves próximas se aquele tinha sido o maior som que já ouviram.

— É um som bem irritante, mas já ouvimos sons mais altos.

A araponga não desistiu: treinou para cantar ainda mais forte. Depois perguntou novamente a opinião das outras aves.

— É um som extremamente irritante, mas já ouvimos sons mais altos.

A araponga se abalou, mas seguiu em frente: fez de tudo para canalizar seu canto com todas as forças imagináveis. O som já tinha se tornado muito mais um urro dolorido do que um canto bonito, porém era indubitavelmente mais alto que as versões anteriores.

Então a araponga foi perguntar o que as outras aves acharam da última tentativa. E estranhou não ter encontrado nenhuma delas por perto.

Justo agora que podia ter finalmente conseguido, a araponga não encontrava ninguém que lhe confirmasse a façanha!

O pássaro voou pelas redondezas e continuou emitindo seu poderoso urro para ver se arranjava outras testemunhas. Sem sucesso.

Mal imaginava a araponga que o seu canto tinha sido tão potente que todas as aves se dispersaram para longe de tamanha irritação por ouvi-lo. Quanto mais a araponga cantava, mais os outros pássaros fugiam.

As demais aves só retornaram quando os cantos cessaram: a araponga berrou tanto que tinha ficado irreversivelmente sem voz. Dessa forma, não pôde mais cantar e nem perguntar aos que voltavam se o seu canto havia de fato alcançado o mundo todo.

https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/fauna/noticia/2015/01/araponga.html

Autoria

Leandro Dupré Cardoso é o criador da página Olhar para Dentro.

Administrador paulistano nascido em 1993, é produtor de artigos para o blog Obvious e foi indicado para a fase final do Prêmio Strix 2016 e 2017 pelas publicações em coletâneas de contos da Editora Andross. Tornou-se jurado do Prêmio Strix em 2018, 2019 e 2022.

É autor dos livros de ficção “O rico, a velha e o vagabundo”, “A era i-Racional”, “Samádia – A lenda da ilha perdida”, bem como da série “O Pinheiro”, entre outros publicados pelas Editoras Andross, Clube de Autores e Kindle Direct Publishing (Amazon).

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